29.8.06

Ambiguidade Desavergonhada






"A 11 de novembro [de 1930], o Congresso e todas as casas legislativas do Brasil foram dissolvidas. O País passou a ser governado por decretos presidenciais e dos interventores nomeados por Getúlio Vargas em cada estado. Juarez Távora, líder dos tenentes, "recebeu" 12 estados nordestinos, o que lhe valeu a alcunha de "Vice-Rei do Nordeste". Ao longo dos 15 anos que durou o governo "provisório" de Getúlio Vargas, haveria inúmeras alianças e rompimentos com as forças e personagens que o apoiaram. A coalizão revolucionária foi se diluindo com o tempo, na medida que a carismática figura do Presidente foi se fortalecendo. O que era um projeto para revolucionar os usos e costumes políticos foi se transmudando num simples projeto de Poder. Para alcançar esse feito, Getúlio Vargas inaugurou a ambigüidade desavergonhada como forma de fazer política. Quando os ventos pareciam soprar a favor do nazismo e do fascismo na Europa, ele pendeu para o lado da Alemanha e Itália. Mas ao ser alertado por Oswaldo Aranha de que as chances na guerra eram favoráveis aos aliados, celebrou um acordo militar com o Presidente Roosevelt. Quando os comunistas pareciam perigosos, não vacilou em persegui-los, prendê-los e torturá-los. Quando a ameaça pareceu controlada, subiu nos palanques eleitorais com Luis Carlos Prestes. O Getúlio Vargas que enalteceu a imprensa foi o mesmo que implantou a censura e permitiu a destruição de redações e tipografias de jornais. Para manter-se no Poder, Getúlio Vargas teceu toda a sorte de alianças políticas e recorreu a todos os métodos. Sem esquecer de beneficiar em abundância parentes, amigos e correligionários com cargos públicos, embaixadas, empréstimos em bancos oficiais, etc."

(Extraído de: http://www.opiniaoenoticia.com.br/interna.php?mat=1315
o Autor, Cândido Prunes é vice-presidente do Instituto Liberal.)

22.8.06

Anaíde Beiriz, vítima da revolução?


Perdidas as eleições de 1930, Getúlio Vargas e seus aliados conspiram. Entretanto, seu discurso de candidato derrotado pela máquina eleitoral de Washington Luís não encontra eco. A conspiração perde seu ímpeto. Entretanto, em 26 de julho de 1930, um acontecimento inesperado mudou a história do Brasil. Em Recife, seu aliado João Pessoa, candidato a vice-presidente pela Aliança Liberal foi assassinado. João Pessoa era o presidente da Paraíba (o equivalente ao cargo atual de governador).
As razões do crime estavam ligadas à política da Paraíba. O choque de interesses levou a polícia a invadir o escritório de advocacia de João Dantas, aliado dos opositores de João Pessoa. A polícia levou consigo cartas de amor, trocadas entre Dantas e a professora Anaíde Beiriz.
Anaíde era poetisa, e escandalizava a sociedade da Paraíba com o seu vanguardismo: usava pintura, cabelos curtos, saía às ruas sozinha, fumava, não queria casar nem ter filhos, escrevia versos que causavam impacto na intelectualidade paraibana para os jornais. Banida da História pelo preconceito, a ponto de proibirem as crianças de pronunciar seu nome, só se tornou conhecida através do filme Parayba, Mulher Macho, de Tizuka Yamasaki.
Apesar de serem ambos solteiros, a imprensa ligada a João Pessoa excedeu-se. O jornal A União, divulgou a versão que as cartas narravam atos imorais por parte de Dantas e que o público poderia ter acesso a elas na chefia de polícia. A professora Anaíde rejeitada por sua família, mudou-se para Recife. João Dantas indignou-se e jurou vingança.
Às 17 horas do sábado, 26 de julho de 1930, Dantas entrou na confeitaria Glória, em Recife, onde se encontravam em uma mesa João Pessoa, Agamenon Magalhães e Caio Lima Cavalcanti e alvejou três vezes João Pessoa. Logo Dantas foi ferido e preso, mas sua vítima morreu logo a seguir.
O crime teve muita repercussão no campo político. Apesar do assassinato estar ligado a uma questão política regional, os líderes da Aliança Liberal, com grande oportunismo, culparam o Governo Federal pelo crime e a conspiração ganhou seu impulso definitivo e a Revolução se efetivou.
Epílogo: Após a revolução, João Dantas foi assassinado na prisão. Pouco tempo depois, Anaíde suicidou-se.

21.8.06

Vidas pela Constituição



A revolta de São Paulo, chamada de "Revolução Constitucionalista", tem sido abordada por centenas de livros, artigos, revistas e outros periódicos.
Poucas são as fontes que falam sobre os que tombaram em combate ou devido às privações nas trincheiras. O saldo de mortos mostra que a insatistação era muito grande nos primeiros anos do governo ditatorial de Getúlio Vargas.
As fontes variam, e são citadas 830 mortes.
A enciclopédia Wikipedia assinala que
"os paulistas computam oficialmente 634 mortos, embora estimativas extraoficiais falem em mais de 1000 mortos paulistas. Do lado federal, nunca foram liberadas estimativas de mortos e feridos.
A fonte mais confiável é o livro "Cruzes Paulistas. Os que tombaram em 32, pela glória de servir São Paulo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1936. 516 p.", cuja foto ilustra este texto. Mas é um livro muito raro o qual ainda não tivemos acesso. Uma pesquisa no acervo da Biblioteca Nacional (RJ) mostra que não há este livro em seu acervo.

No mais uma extensa bibliografia sobre a Revolução Constitucionalista, em nossa comunidade no Orkut, Livros de Guerra:

http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=2282032&tid=23927595

18.8.06

O mais longo exílio

Caricatura de Rian - MHN

(Nair de Teffé foi a primeira caricaturista brasileira - Petrópolis, RJ,1886/Niterói, RJ,1981).



Muito se fala dos exílios recentes, ocorridos durante o período de regime militar entre 1964 e a década de 1980. Mas a Era Vargas é igualmente marcada por esta forma de perseguição política. Vale notar, que o mais longo exílio da história do Brasil, ocorreu no primeiro ato da Era Vargas.
O golpe militar de 1930, depôs o presidente Washington Luís, em fim de mandato, e empossou uma junta militar, que logo se tornou o "governo provisório" que mais tempo se manteve no poder. Conta o jornalista (crônista político) Sebastião Nery (Revista Consultor Jurídico, 16 de abril de 2005):
"Em 18 de setembro de 47, de colete, chapéu coco e cavanhaque branco, Washington Luís, derrubado em 30, voltou do mais longo exílio político do País, foi recebido por uma multidão no cais da Praça Mauá, no Rio, saudado pelo general Euclides Figueiredo e pelo governador da Bahia Otavio Mangabeira, desfilou na Avenida Rio Branco em carro aberto, ao lado do chefe da Casa Militar de Dutra, general Alcio Souto, e veio para São Paulo.
No Rio e aqui, a imprensa queria uma entrevista, o ex-presidente não deu. José Carlos Pereira de Souza, do "Correio Paulistano", não se conformou:
- Presidente, não nos deixe frustrados. Diga ao menos uma coisa. Por exemplo, qual a diferença entre o passado e o presente?
- Antigamente, faziam-se eleições desonestas para eleger homens honestos. Hoje, fazem-se eleições honestas para eleger desonestos."
Dezessete anos após ter sido exilado, Washington Luís voltava ao seu país, em tempo de assistir ao suicídio de Getúlio Vargas em 1954. Sobre sua volta, segundo seu verbete no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro da FGV:
"Definitivamente retirado da vida pública, fixou residência em São Paulo e se dedicou a estudos históricos, coligindo notas genealógicas sobre sua família e preparando nova edição do seu livro Na capitania de São Vicente.
Membro benemérito da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, presidente honorário da Cruz Vermelha Brasileira, membro dos institutos Histórico e Geográfico de São Paulo, Bahia e Ceará, integrante da Academia Paulista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Washington Luís faleceu em São Paulo no dia 4 de agosto de 1957.
Escreveu Contribuição para a história da capitania de São Paulo, governo Rodrigo César Meneses (1905, 2ª.ed.1938), Diogo Antônio Feijó (1913), Na capitania de São Vicente (1918, 2ª. ed. 1976) e Arte e existência (1949). Publicou também inúmeros artigos sobre história, especialmente na Revista do Instituto histórico e Geográfico de São Paulo."

Apresentação

A idéia deste blog é reunir dados sobre o outro lado da Era Vargas. Perseguição política, exílios, tortura, execuções e conspirações, foram uma constante durante o período em que o Brasil foi governado por Getúlio Vargas e seus aliados. Mas este lado de seu governo é ignorado ou minimizado pela historiografia.
Não nos cabe julgar os motivos desta tendência historiográfica, mas nos cabe, como historiador, apontar e criticar as contradições da história recente de nosso país.


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O "exército da borracha"



Em 1942, o Brasil se volta para o esforço de guerra dos aliados na luta contra o nazismo e o fascismo. O governo brasileiro, segundo a revista Época, Edição 306 - 29/03/04,
"de olho em empréstimos para implantar seu parque siderúrgico e comprar material bélico, o governo brasileiro firmou com o americano, em 1942, os chamados Acordos de Washington. Sua parte no trato era permitir a instalação de uma base americana em Natal e garantir o fornecimento de produtos como alumínio, cobre, café e borracha (os seringais da Malásia, controlados pelos ingleses, estavam bloqueados pelo Japão).
O então presidente Getúlio Vargas só tinha um motivo para perder o sono: com o fim do primeiro ciclo da borracha, na década de 10, os seringais estavam abandonados e não havia neles mais que 35 mil trabalhadores. Para fazer a produção anual de látex saltar de 18 mil para 45 mil toneladas, como previa o acordo, eram necessários 100 mil homens.
A solução foi melhor que a encomenda. Em vez de um problema, Getúlio resolveu três: a produção de borracha, o povoamento da Amazônia e a crise do campesinato provocada por uma seca devastadora no Nordeste. 'A Batalha da Borracha combina o alinhamento do Brasil com os interesses americanos e o projeto de nação do governo Vargas, que previa a constituição da soberania pela ocupação dos vazios territoriais', explica Lúcia Arrais Morales, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, autora do livro Vai e Vem, Vira e Volta - As Rotas dos Soldados da Borracha (editora Annablume)."
Entretanto, o preço para o "progresso" foi muito caro. Dos 55 mil homens e mulheres que atenderam ao apelo de Getúlio Vargas para a “batalha da borracha”, estima-se que, devido ao abandono do governo, 31 mil homens tenham morrido de malária, febre amarela, hepatite e onça.

Fontes:
Revista Época, edição 306 (29/03/2004)
Revista Isto É. (30/12/1998)
Revista Brasileira de História. vol.21 nº.40 (2001). Getúlio e a seca: políticas emergenciais na era Vargas, artigo de Frederico de Castro Neves.
Documentário do cineasta cearense Wolney Oliveira, "Borracha para a Vitória".
Lúcia Arrais Morales. Vai e vem, vira e volta: as rotas dos soldados da borracha. São Paulo : Annablume, 2002. 364p.